abr 11 2009

SEUD – Parte II

Escrito por Biano

Parte II

Neste mesmo domingo, logo mais a noite, todos se encontraram no centro da cidade. Guaxupé é uma cidade pequena, pouco mais de cinqüenta mil habitantes, localizada no sudeste de Minas Gerais estando muito próxima a divisa do estado de São Paulo. Entre meio as conversas Flávia pergunta por Víctor, e este não costumava ficar em casa durante a noite, especialmente nos finais de semana; Fernando diz que ele havia deixado sua casa pouco depois de uma hora da tarde, e que não se sentia bem. Carlos se aproveita:

_ Exagerar na bebida, só pode dar nessas coisas!

_ Pára de implicar com o Victor – Flávia intervém – você não perde uma chance de falar mal do “menino”.

_ Será que o Victor está legal em casa? – pergunta Fernando preocupado e acabando com a discussão.

_ Só porque ele não saiu hoje não quer dizer que ele esteja tão mal assim, amanhã nós veremos em que situação ele se encontra.

_ Não sei não Flávia! Raramente ele fica em casa.

_ Relaxa Alice. Ele deve estar bem!

Alice ficou muito preocupada, porém o susto maior ela teria no outro dia. Segunda-feira e lá estava ela na casa de Seu José a perguntar por Victor, quando recebe a notícia de que ele estava no hospital, abalada ela pergunta:

_ Mas porque Seu José? O que aconteceu? Como ele está?

_ Ainda não sei Alice!

_ Mas como não sabe?

_ Ele se levantou reclamando de uma fraqueza terrível, estava muito pálido, quase desmaiando. Liguei para o hospital pedindo uma ambulância que logo nos pegou.

_ Mas quanto tempo ele vai ficar lá?

_ Eu  não sei – lamenta Seu José.

_ Mas então temos que levar algumas coisas para ele, roupas e… – disse Alice esboçando uma tentativa de abrir o quarto de Victor, quanto é interrompida por Seu José.

_ Ele já levou uma mochila com algumas peças de roupa e trancou o quarto logo após. Eu estava no hospital desde manhã, e vim agora tomar um banho e comer alguma coisa.

Perplexa e preocupada, Alice deixa a casa de Seu José e vai a procura de Flávia, que também fica espantada mas consegue manter a calma. Ligaram para Pedro e Fernando para lhes dar a notícia, os dois, juntamente com as meninas são os amigos mais chegados de Victor.

No hospital, Victor muito fraco agradecia em murmúrios a presença dos amigos, dizia ainda não conhecer o diagnóstico médico, mas que a cada minuto parecia estar mais fraco. Nesse exato momento entra na sala o médico responsável por Victor, sua atitude preocupa a todos, pois no lugar da bolsa de soro ele coloca uma bolsa de sangue para ser recebido por Victor. Após a troca, que causou um pasmo unânime, o médico chama o pai de Victor para uma conversa particular. Já em uma sala à parte, o médico revele à Seu José que Victor sofre de uma estranha e aparentemente irremediável hemorragia interna. Nesse meio tempo, Victor recebe mais visitas de seus amigos de passeios noturnos.

Noite de terça-feira, e Seu José observava seu filho que dormia profundamente enquanto a madrugada entrava, um olhar de piedade e desconsolo tomava a face de seu pai que nesse momento também adormeceu, e este dormira sentado, na cadeira ao lado da cama de seu filho.

Ao acordar na manhã de quarta-feira, o pai de Victor não notara sequer uma diferença na posição da qual seu filho havia dormido, preocupado tentara inutilmente acordá-lo, e sai desesperado em busca de auxílio, correndo pelos corredores do hospital.

Tendo sido rapidamente examinado, o médico constata que Victor estava em coma.

Mais tarde, Alice chegando ao hospital, sozinha e bem antes dos seus amigos, é barrada por Seu José, e recebe a má notícia em prantos.

Na quinta-feira à tarde o hospital recebe uma presença muito inusitada. Carlos que ainda não tinha visitado Victor, se encontrava afoito em fazê-lo, e é parado por Alice:

_ Carlos?! O que você está fazendo aqui?

_ Vim ver o meu amigo Victor – responde ele, olhar cínico.

_ Mas ele está em coma, e só dá pra ser visto pelo lado de fora do quarto.

_ Justamente. Você acha que eu iria perder a chance de presenciar a desgraça de meu inimigo? – disse Carlos abrindo um sorriso maquiavélico, cheio de satisfação.

Alice rapidamente se põe pronta a golpeá-lo e empurrá-lo em direção contrária ao quarto de Victor. Fernando de longe vê a cena de dá um astuto grito para Pedro, e os dois correm para separar o conflito. Ao sair do hospital acompanhado por Pedro, Carlos tenta se explicar mas é bruscamente interrompido:

_ Você devia se envergonhar. Não tem perdão para o que você fez. – diz Pedro enraivado.

_ Pois espero que ele morra!

Pedro estava indignado com a frase inescrupulosa dita por Carlos, sua única reação foi se virar e voltar ao hospital.

Sobre o autor
Biano é professor de inglês e músico, vocalista da banda de trash metal Breakneck.
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jan 31 2009

SEUD – Parte I

Escrito por Biano

Parte I

__ Igreja linda, não?

__ Sim Alice, até grande demais para uma cidade do interior!

__ Discordo! Ela é iníqua e imprestável como todas as outras.

__ Sempre a mesma história, – disse Flávia obstendo à conversa – é só falar de religião e o Victor se revolta.

__ É mesmo Victor, por que toda essa revolta? – pergunta Alice.

__ Eu não preciso contar tudo que eu penso e sinto a vocês, – disse Victor, olhar ao céu.

__ Ele sempre tem respostas evasivas – fala Pedro, intrigado.

__ Olha desculpem-me se eu me perturbei de novo, é que eu não gosto desses assuntos está bem? Dá pra gente mudar de assunto?

__ Eu vou é embora!

__ Concordo com você Flávia, são duas horas da madrugada e a gente discutindo na praça em frente à igreja, é uma idiotice – argumenta Pedro.

E logo em seguida estava Victor novamente a ruminar seus velhos pensamentos. A caminho de casa, só como na maioria das vezes, olhava aos céus e indagava em murmúrios com medo de que outrem o visse:

__ Por quê? Você não é o Onipotente? Perguntara ele em uma blasfêmia irônica mesclada com uma súplica misericordiosa.

Victor morava com “Seu José”, seu pai, e sua mãe havia morrido de um câncer que chegara repentinamente e a levara sem demoras. Victor em sua casa passava a maioria do tempo trancado em seu quarto, local cujo seu interior era desconhecido por todos, até mesmo pelo seu pai. Ao sair do quarto Victor sempre trancava a porta, mesmo quando saia apenas para comer uns daqueles deliciosos “rangos” do Seu José, que era aposentado, pessoa simples e muito querida pelos amigos de seu filho.

Noite de sábado, céu aberto, cheio de estrelas lindas e luzentes, apenas algumas bruxuleavam nas extremidades do céu. A lua cheia imperava, apesar de tantas estrelas, e era ela justamente naquele momento o alvo de contemplação das pessoas que estavam na casa de Fernando. Esse era filho único e com freqüência passava finais de semana sozinhos em casa, devido às freqüentes viagens de seus pais que eram uns dos advogados mais respeitados da cidade e região. Fernando sempre dava festas quando ficava só, poucas pessoas, apenas os amigos mais chegados, e seus pais tinham conhecimento dessas festas. Nessa hora a festa estava no ápice, todos admiravam a lua quando notaram a ausência de Victor. O encontraram do outro lado da casa, não estava só, pois lhe acompanhava um copo de uma bebida qualquer que se encontrava à sua direita, olhava fixamente para o céu. Fernando fez sinal para que todos ficassem quietos, e caminhou em direção de Victor, que se encontrava de costas, na expectativa de assustá-lo em uma brincadeira, Fernando se surpreendeu:

__ Idiota! Você não sabe de nada! Acha que eu confio em você? Coloque-se no meu lugar e sinta o que eu sinto – murmurava e choramingava Victor.

Fernando se encontrou afoito em saber o que acontecia e constatou que Victor se encontrava totalmente inebriado, parecia que estava tendo uma discussão com alguém muito próximo, mas seu olhar era fixo no céu. Todos preocupados lhe ajudaram a levantar menos Carlos que tinha problemas com Victor desde a escola primária. Carlos contestava:

__ Ele bebe além do que pode, começa agir como um louco e ainda estraga a festa. Deveríamos levá-lo para um manicômio!

__ Você sente inveja porque ele tem nossa atenção – fala Alice em uma defesa súbita.

Nesse momento Victor apaga em um profundo sono, e é carregado por Pedro e Fernando até a cama mais próxima. Enquanto isso a discussão entre Alice e Carlos continuava:

__ Eu sei por que o defende tanto!

__ Mesmo! Por quê?

__ Todos sabem que você tem uma queda pelo Victor!

__ Não é nada disso, você é tão malicioso, eu apenas tenho um carinho, um afeto muito grande por ele. Eu vou é sair daqui, você é mesmo um trouxa!

Alice saiu e Carlos se colocou a segui-la, pois ela se dirigia à sala onde se encontrava o resto do pessoal. Logo após sua chegada, Alice não exita em perguntar como Victor estava passando, levando a todos uma quase certeza do que antes era suspeita: sua atração por Victor.

Mas essa não era a maior preocupação de todos, e sim o estado em que Victor se encontrava não o estado físico, mas o psicológico. Victor era uma pessoa normal, a não ser pelo seu estranho comportamento no que se dizia respeito à religião. Victor nem sempre foi apático a esses assuntos, ele já chegou a ser antes uma pessoa religiosa, não assídua a cultos ou missas, mas era de uma grande fé. Essa mudança súbita era um assunto que intrigava a todos que viviam com ele, e este por sua vez nunca revelou nada a ninguém.

Domingo aproximadamente uma hora da tarde, Victor se levanta e percebe ainda não haver saído da casa de Fernando, e é quando o mesmo acaba de adentrar o quarto. Victor reclama de um terrível mal estar, e Fernando lhe dizem que com certeza se tratava de uma ressaca poderosa, devido à bebedeira da noite passada. Ele se queixa de não se lembrar de muita coisa, especialmente de como foi parar naquela cama, Fernando por sua vez tenta apaziguá-lo, diz pra ele não se preocupar, pois não houve vexame. Victor então deixa a casa ainda se queixando do agudíssimo mal estar.

continua…

Sobre o autor
Biano é professor de inglês e músico, vocalista da banda de trash metal Breakneck.
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